1.10.06

 

A Europa Jazente e Expectante

Nos dois poemas abaixo transcritos, de autores eminentemente reflexivos, como Pessoa e Unamuno, pode adivinhar-se uma atitude expectante de um ser real ou algo mítico que designaríamos por Europa.

A Europa jaz, posta nos cotovelos :
De Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita, com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal

Fernando Pessoa – in Mensagem, 1934

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Del atlántico mar en las orillas
desgreñada y descalza una matrona
se sienta al pie de sierra que corona
triste pinar. Apoya en las rodillas

los codos y en las manos las mejillas
y clava ansiosos ojos de leona
en la puesta del sol; el mar entona
su trágico cantar de maravillas.

Dice de luengas tierras y de azares
mientras ella sus pies en las espumas
bañando sueña en el fatal imperio

que se le hundió en los tenebrosos mares,
y mira cómo entre agoreras brumas
se alza Don Sebastián, rey del misterio.

Miguel de Unamuno, in Revista A Águia,1911

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Estes dois escritores tentaram, cada um a seu modo, perceber o sentido das civilizações e, num âmbito mais circunscrito, essa coisa algo inefável a que chamamos a Alma Portuguesa ou, num plano mais vasto, a Alma Lusíada, aquele ser que resultaria da comunhão de valores culturais e até espirituais presentes nos diversos povos com os quais os Portugueses conviveram ao longo dos séculos, nos diversos continentes aonde chegaram, desde a grande aventura iniciada na época quinhentista.

Quer Fernando Pessoa, quer Miguel de Unamuno, mais o primeiro, obviamente, deram-se a esse trabalho de paciente perscrutação daquilo que mais genuinamente traduz a nossa originalidade como povo que se disseminou pelo Mundo.

Cito Unamuno, pela curiosa analogia dos poemas e também porque este ilustre Professor e Reitor da Universidade de Salamanca, igualmente prolixo escritor, de grande profundidade cultural e de forte sensibilidade poética, foi dos raros intelectuais modernos espanhóis a interessar-se, com devoção, pela nossa cultura e pela nossa singularidade de pequeno povo ibérico e europeu, com assinalável presença na História.

Unamuno carteava-se e visitava com frequência outros escritores portugueses seus contemporâneos, como Guerra Junqueiro, Teixeira de Pascoaes, Manuel de Laranjeira e Eugénio de Castro; era leitor das suas obras e sincero apreciador da Literatura Portuguesa, com particular interesse por Camões, Herculano, Camilo, Antero e Eça, cujas obras comentava com notório gosto e conhecimento.

Por estas interessantes e invulgares características a que acrescem a de ser um escritor de clara vocação filosófica, com algumas fecundas incursões pela religião, bem mereceria Unamuno que os Portugueses e também os Espanhóis lhe estudassem e divulgassem melhor toda a sua vasta obra.

Pessoa, na sua difusa produção intelectual, dedicou, como se sabe, vários estudos ao tema do Portuguesismo, ao Sebastianismo e ao Quinto Império, assuntos correlatos que reciprocamente se alimentam, e que Pessoa, num nítido propósito de exaltação colectiva, abordava numa tentativa de arrancar os seus compatriotas de um inconveniente estado de desânimo, porventura semelhante àquele em que hoje de novo nos encontramos.

Continuava, assim, Fernando Pessoa um trabalho a que já a distinta geração de 70, de Antero, Eça e Oliveira Martins, se votara com exaustivo empenho. Dele saiu, no entanto, esta geração de espíritos brilhantes, como sabemos, algo desanimada pelos escassos resultados alcançados.
O País, afinal, era mais refractário à mudança do que eles haviam imaginado quando moços universitários cheios de leituras, sobretudo francesas, de teorias e práticas revolucionárias, na Arte e na Política, que desejariam ver aplicadas em Portugal.

Talvez a sua maior decepção viesse dessa sua visão demasiado intelectual, pouco enraizada na realidade da vida da população portuguesa, nesse tempo muito precária, no aspecto material. No plano cultural, tampouco era melhor, com uma percentagem elevadíssima de analfabetos: mais de 70% da população não dispunha sequer das luzes das primeiras letras.

Viriam, depois, os republicanos, em 1910, a impulsionar com maior determinação, a patriótica tarefa da alfabetização dos portugueses, com a multiplicação pelo país de Escolas da Instrução Primária, onde o povo aprendia a ler, a escrever e a fazer contas, adestrando a mente no domínio das 4 operações fundamentais da Aritmética, ao mesmo tempo que fomentariam o ensino da História Pátria e a aquisição de alguns rudimentos da muito utilitária formação cívica.

Estas tarefas teriam continuação no que viria a ser o Estado Novo, de Oliveira Salazar, cuja primeira década de vigência se pode considerar bastante operativa na consolidação e na credibilização do Estado Português, que, em 1926, se encontrava quase desfeito das lutas partidárias intestinas da primeira experiência republicana.

Da Escola desse tempo, o do Estado Novo, ainda hoje Portugal beneficia. Oxalá pudéssemos vir a dizer o mesmo desta que temos andado a construir nos últimos trinta e poucos anos.

Afirmar isto, não é elogiar politicamente o Salazarismo; é tão-só reconhecer uma evidência, que faríamos bem em assumir com naturalidade, para podermos arrepiar caminho, sem descabidos pruridos de uma delicada consciência democrática supostamente ferida.

Que ganharemos nós em continuar, contra toda a evidência, a ficção de considerarmos a Escola Primária da Democracia, reinstaurada em Abril de 1974, superior à da Ditadura derrubada naquela data ?

Num âmbito mais alargado, parece já não restarem dúvidas a muitos espíritos que, afinal, o Progresso, principalmente no plano ético, não é nenhuma coisa garantida e a própria Ciência, com a sua adjuvante Tecnologia, se cresce em poder, cresce igualmente em complexidade, o que a torna ipso facto pouco acessível à maioria das pessoas, mesmo cultas, ao mesmo tempo que os seus maiores arautos, os cientistas consagrados pelas suas descobertas, perdem amiúde a noção dos fins superiores a que ela, a sua dama Ciência, se deve naturalmente subordinar.

Daí se ter tornado tão necessária a reflexão sobre os limites éticos da prática científica, que já levou à criação de espécies de Conselhos Superiores Interdisciplinares de Ética, entidades compostas por pessoas de formações diversas, de comprovada idoneidade científica e moral, encarregadas de estudar, aconselhar e propor normas ou regras que visem acautelar o futuro do desejado uso prudente da Ciência.

É preciso evitar que alguns aprendizes de feiticeiro, cientistas ou não, sobretudo se aliados a protagonistas políticos de minguados escrúpulos éticos, venham a comprometer o desejo de a Humanidade vir, conjuntamente, a viver de uma forma compatível com a noção de Dignidade que a Civilização, laboriosamente, no transcurso de muitos séculos a habilitou, a essa mesma Humanidade, a conceber.

A Europa, como Continente privilegiado, pelo progresso material e cívico alcançado, tem particulares responsabilidades neste ponto. Pode, de facto, a Europa muito bem ser esse ambicionado espaço de prosperidade económica e de harmonioso convívio cultural, porque reúne, mais que qualquer outro continente, todos os requisitos para tal desiderato. Mas, para o atingir, terá de abandonar a posição jazente, demasiado expectante dos poemas acima transcritos.

Refiro-me, em concreto, à recente decisão da Ópera de Berlim de anular a anunciada representação de uma das óperas de Mozart, Idomeneo, por sinal, uma das suas menos representadas, por receio da atentados terroristas de grupos islâmicos, eventualmente desagradados de algumas cenas mais escabrosas que o encenador tencionaria incluir, a exemplo do que se tem feito com essa peça desde há alguns anos, no exercício de uma liberdade criativa normal e até agora aceite sem qualquer contestação conhecida.

Estou ainda esperançado em que a firmeza da Chanceler Angela Merkel, venha a prevalecer sobre a insensatez da Direcção daquela instituição, na sequência de uma eventual recomendação superior. Se tal não suceder, pode, desde já, temer-se o pior, tanto mais que este lamentável episódio ocorre numa Nação que temos por firme na sua vontade política e rigorosa na aplicação das leis, no seu viver quotidiano.

Depois do caso de Salman Rushdie, quando ainda não havia nenhuma guerra no Golfo Pérsico, nem no Iraque, nem no Líbano, convém recordar aos que sempre encontram motivos desculpabilizantes para as actuações dos terroristas de motivação religiosa islâmica e aos que, a esse respeito, manifestam as suas eternamente insuperáveis inibições, tivemos já, sucessivamente, o assassínio na rua, em plena luz do dia, na tolerante Amesterdão, do realizador de cinema holandês, Theo Van Gogh, a crise das caricaturas dinamarquesas e os tumultos aleivosamente atribuídos ao discurso académico do Papa Bento XVI, sobre as relações entre a Fé e a Razão, na Universidade de Ratisbona.

Entretanto, surgiu a notícia de que, em França, terá ocorrido um episódio semelhante, no seu ultraje, com a ameaça de morte proferida contra um Professor de Filosofia, por fanáticos muçulmanos que não gostaram de algumas considerações que este Professor, no seu mais elementar direito de cidadania, terá feito sobre o Islão.

Tudo isto configura, aqui na Europa, um delicado problema de convívio inter-cultural, inter-étnico ou inter-religioso, que julgávamos arredado das nossas preocupações e com o qual teremos de aprender a lidar sem tergiversações, demonstrando de forma clara que não toleramos, por parte de nenhum grupo, daquelas afinidades ou de outras, qualquer tentativa, sob que pretexto for, de condicionamento cultural no nosso estilo de vida.

Valores como a liberdade de pensamento e a sua franca e multímoda expressão, há muito anos estabelecidos e respeitados na Europa, não podem ser condicionados por motivos de ordem religiosa, nem de qualquer outra. Por estes nobres valores e princípios muitos mártires houve aqui neste Continente, mais que em qualquer outro.

Se, por qualquer alegada razão, não formos capazes de honrar esta tradição, trairemos a nossa dignidade de cidadãos livres e, vergonhosamente, desmereceremos o sacrifício de toda essa gente que, no passado, sofreu para que hoje pudéssemos usufruir desses privilégios de natureza espiritual.

Quero crer que não assistamos a mais este indecoroso recuo.

AV_Lisboa, 01 de Outubro de 2006

Comments:
"Da Escola desse tempo, o do Estado Novo, ainda hoje Portugal beneficia. Oxalá pudéssemos dizer o mesmo desta que temos andado a construir nos últimos trinta e poucos anos."

Também não sou salazarenta, e tão pouco saudosista desses tempos, no entanto concordo totalmente consigo.
Há imensos "buracos negros" no ensino de hoje. Os maiores:
Ortografia e História. No caso dos meus filhos depois de muita luta puz em ordem a ortografia. Quanto à História pouco foi possível acrescentar. E tenho pena!
 
Maquiavel disse que "não há comparação possível entre um homem armado e um desarmado". O mesmo se poderá dizer das culturas. O Islão, hoje conduzido pelos fanáticos extremistas, é uma cultura armada. E a cultura europeia está desarmada.
Os seus Exércitos são pequenos e, embora sofisticados, são completamente desadequados para a guerra que se avizinha. Eu diria, plagiando Maquiavel, que não há comparação possível entre um caça F16 e um maltrapilho "vestido" com um cinto de explosivos.
E o pior é que, para se fazer a guerra, só se consegue a necessária "carne para canhão" (ou para os cintos de explosivos)quando os povos são pobres, ignorantes e acreditam na vida eterna (especialmente com direito a virgens no paraíso).
E na Europa já não há disso. Pelo menos nas quantidades necessárias.
 
Caro António Viriato,
Parece-me que não podemos confundir certas matérias e, acima de tudo, uma certa metodologia escolar do Estado Novo com os fins que elas serviam. O ensino era «bom» e «bem ordenado», porque estava subordinado e amordaçado. Ao contrário, o ensino na 1.ª República - aquela que é constantemente acusada de ter provocado o descalabro nacional - apontava para a escolaridade, mas, acima de tudo, para a educação cívica do cidadão. É isto, principalmente, que tem faltado nos últimos trinta anos: não soubemos fazer cidadãos... preocupámo-nos com outras coisas!
A Europa - essa entidade mítica que nem geograficamente se consegue delimitar -, tal como o mundo culturalmente por ela influenciado, está a confrontar-se com um novo tipo de herói: o que quer morrer. Na verdade, só por necessidade de emulação dos combatentes, se desenvolveu entre nós o culto dos heróis mortos. Na cultura greco-latina sempre se glorificou, com mais força, o herói vivo, fazendo dele um semi-deus.
Os islâmicos estão a revirar o princípio que nos provoca repulsa cultural, porque em confronto estão, mais do que religiões e princípios religiosos, culturas divergentes. Culturas que pretendem aprisionar o seu Deus, sendo incapazes de perceber que um deus que é prisioneiro não pode ter (ou ser) uma entidade divina. Só a tolerância constrói um Deus livre e de todos.
Por que temos medo da tolerância? Da verdadeira prática da tolerância? Da aceitação do outro que nos parece diferente?
 
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